sexta-feira, 10 de junho de 2011

CANÇÕES

            VÃO AS SERENAS ÁGUAS

             Vão as serenas águas
             do Mondego descendo
e, mansamente, até o mar não param;
             por onde as minhas mágoas,
             pouco e pouco crescendo,
para nunca acabar se começaram.
             Ali se me mostraram,
             neste lugar ameno
             em que inda agora mouro,
             testa de neve e de ouro,
riso brando e suave, olhar sereno,
             um gesto delicado,
que sempre na alma me estará pintado.

             Nesta florida terra,
             leda fresca e serena,
ledo e contente para mim vivia;
             em paz com minha guerra,
             glorioso coa pena
que de tão belos olhos procedia.
             De um dia em outro dia
             o esperar me enganava;
             tempo longo passei,
             com a vida folguei,
só porque em bem tamanho me empregava.
             Mas que me presta já,
que tão formosos olhos não oa há?

              Oh! quem me ali dissera
              que de amor tão profundo
o fim pudesse ver ainda algûa hora!
              E quem cuidar pudera
              que houvesse aí no mundo
apartar-me eu de vós, minha senhora!
              Para que, desde agora,
              já perdida a esperança,
              visse o vão pensamento
              desfeito em um momento,
sem me poder ficar mais que a lembrança,
              que sempre estará firme,
até no derradeirodespedir-me.

              Mas a mor alegria
              que daqui levar posso
e com que defender-me,triste, espero,
              é que nunca sentia,
              no tempo que fui vosso,
quererdes-me vós quanto vos eu quero;
              porque o tormento fero
              de vosso apartamento
              não nos dará tal pena
              como  a que me condena:
que mais sentirei vosso sentimento
              que o que a minha alma sente.
Moura eu, Senhora, e ficai vós contente!

              Tu, Canção, estarás
               agora acompanhando
por estes campos estas claras águas,
               e por mim ficarás
               com choro suspirando,
por que, ao mundo dizendo tantas mágoas,
               como ûa larga história
minhas lágrimas fiquem por memória.

Autor: LUÍS VAZ DE CAMÕES.

2 comentários:

  1. Edumanes

    Camões sempre fascina. Não apenas por haver evocado as glórias Pátrias mas por poemas de Amor profundo e cheios do Amor que espalhou durante o seu viver.
    Neste Dia de Portugal, Poemas de Camões deveriam correr pelas ruas e rios, inundar as Almas, evocar a Portugalidade...

    Abraços

    SOL
    ttp://acordarsonhando.blogspot.com/

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  2. Tentei comentar ontem e não consegui...
    bela homenagem que fez no dia que a ele pertence também.
    Beijinho

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