terça-feira, 28 de junho de 2011

POETA MILITANTE II.

                Bati com o pé no deserto
                 e não naseu uma fonte....

                    Toquei numa rocha
            e não se cobriu de açucenas...

                      Beijei uma árvore
          e o enforcado não ressuscitou...

                  Amaldiçoei a paisagem
                 e não secaram as raízes...

 Digam-me lá: para que diabo serve ser poeta?
                (Os santos são mais felizes)

           Autor: JOSÉ GOMES FERREIRA.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A SEPARAÇÃO.

                  Quando minha mãe morreu
        Do meu pai e meus irmãos fui separado
                  Foi triste, porque, aconteceu
             Para casa de meus tios fui levado
                  Pela minha mais velha irmã
               Que num dia para lá me levou
                      Foi numa triste manhã
             Que muito sofrimento me causou
                  Foi-se embora lá me deixou
                         Também ela sofreu
                 Da nossa separação resultou
                      Para todos  sofrimento.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

TRISTE FOI A MINHA INFÂNCIA.

                 No Alentejo, onde, nasci,
              Lá no Monte do Vale Burro
              Foi lá que minha mãe perdi
               Quando, ainda, era miúdo
              Fiquei triste quando percebi
                    A brincar, eu, andava
                   Quando em casa entrei
                 Minha mãe morta  estava
                     Na cama já sem vida
                  Para sempre me deixava
                 Parecia estar adormecida
                  Quando morta já estava

sexta-feira, 10 de junho de 2011

CANÇÕES

            VÃO AS SERENAS ÁGUAS

             Vão as serenas águas
             do Mondego descendo
e, mansamente, até o mar não param;
             por onde as minhas mágoas,
             pouco e pouco crescendo,
para nunca acabar se começaram.
             Ali se me mostraram,
             neste lugar ameno
             em que inda agora mouro,
             testa de neve e de ouro,
riso brando e suave, olhar sereno,
             um gesto delicado,
que sempre na alma me estará pintado.

             Nesta florida terra,
             leda fresca e serena,
ledo e contente para mim vivia;
             em paz com minha guerra,
             glorioso coa pena
que de tão belos olhos procedia.
             De um dia em outro dia
             o esperar me enganava;
             tempo longo passei,
             com a vida folguei,
só porque em bem tamanho me empregava.
             Mas que me presta já,
que tão formosos olhos não oa há?

              Oh! quem me ali dissera
              que de amor tão profundo
o fim pudesse ver ainda algûa hora!
              E quem cuidar pudera
              que houvesse aí no mundo
apartar-me eu de vós, minha senhora!
              Para que, desde agora,
              já perdida a esperança,
              visse o vão pensamento
              desfeito em um momento,
sem me poder ficar mais que a lembrança,
              que sempre estará firme,
até no derradeirodespedir-me.

              Mas a mor alegria
              que daqui levar posso
e com que defender-me,triste, espero,
              é que nunca sentia,
              no tempo que fui vosso,
quererdes-me vós quanto vos eu quero;
              porque o tormento fero
              de vosso apartamento
              não nos dará tal pena
              como  a que me condena:
que mais sentirei vosso sentimento
              que o que a minha alma sente.
Moura eu, Senhora, e ficai vós contente!

              Tu, Canção, estarás
               agora acompanhando
por estes campos estas claras águas,
               e por mim ficarás
               com choro suspirando,
por que, ao mundo dizendo tantas mágoas,
               como ûa larga história
minhas lágrimas fiquem por memória.

Autor: LUÍS VAZ DE CAMÕES.